1º de abril

1º de abril: ‘O Dia em que a Verdade Tropeça’. Por Meraldo Zisman

 1º de abril: ‘O Dia em que a Verdade Tropeça’

1º de abril
Todo ano, no dia 1º de abril, a mentira veste sua melhor roupa e desfila impune. É o dia das pegadinhas, dos trotes, das farsas inofensivas – ou nem tanto. A data tem raízes no século XVI, quando a França decidiu mudar a comemoração do Ano Novo de 1º de abril para 1º de janeiro. Os que insistiam em celebrar na antiga data eram ridicularizados como bobos de abril. Desde então, a tradição das brincadeiras se perpetuou, mas, hoje, há um sabor amargo nessa velha piada: vivemos numa era em que a mentira já não precisa de um dia específico para brilhar.

A verdade anda fragilizada, tropeçando entre manchetes escandalosas, vídeos editados e frases recortadas que, soltas no vento digital, adquirem novos significados. Qualquer notícia, seja um fato ou um delírio, pode viajar o mundo em segundos. E, como num jogo de espelhos, quanto mais se reflete, mais distante da realidade pode se tornar.

A inteligência artificial, essa criatura que moldamos com códigos e algoritmos, aprendeu a imitar nossa linguagem, nossas vozes, até mesmo nossos rostos. Consegue gerar imagens e textos indistinguíveis da realidade. O que antes exigia esforço humano para enganar, hoje se faz com um clique. O velho truque do 1º de abril ganhou um reforço sofisticado: agora, a mentira vem com selo de autenticidade.

No entanto, ironicamente, é essa mesma tecnologia que pode nos salvar do caos informativo.

Ferramentas de verificação analisam dados em segundos, expõem incoerências e desmascaram farsantes digitais. Mas há um detalhe que nenhuma máquina pode resolver: a decisão de acreditar. A IA pode apontar inconsistências, mas não pode ensinar um homem a duvidar. Esse é um exercício da mente, uma escolha moral.

E aí está o ponto crucial. A desinformação não se espalha sozinha. Ela precisa de uma plateia disposta a aplaudi-la. Vivemos em tempos onde a crença muitas vezes se sobrepõe ao fato. O viés de confirmação nos torna cúmplices das mentiras que queremos ouvir, e o desejo de ter razão atropela a necessidade de saber a verdade. Em um mundo de verdades personalizadas, perguntar-se “isso faz sentido?” tornou-se um ato de resistência.

A verdade, coitada, é silenciosa. Não tem o estrondo das fake news nem a sedução das teorias conspiratórias. Ela não viraliza com facilidade. Mas é ela que sustenta a civilização. Sem verdade, restam apenas ruínas de confiança.

No fim das contas, a escolha é nossa. Podemos ser cúmplices do engano ou aliados da lucidez. E não apenas no 1º de abril, mas todos os dias do ano.

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Meraldo Zisman Médico, psicoterapeuta. É um dos maiores e pioneiros neonatologistas brasileiros. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Vive no Recife (PE). Imortal, pela Academia Recifense de Letras, da Cadeira de número 20, cujo patrono é o escritor Alvaro Ferraz.

Relançou – “Nordeste Pigmeu”. Pela Amazon: paradoxum.org/nordestepigmeu

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