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Estrela e coadjuvantes na tentativa de golpe. Por Fernando Gabeira
By Chumbo Gordo 5 horas ago
(ARTIGO PUBLICADO ORIGINALMENTE EM O ESTADO DE S. PAULO, E NO SITE DO AUTOR,www.gabeira.com.br, EDIÇÃO DE 28 DE FEVEREIRO DE 2025)
O processo sobre a tentativa de golpe deve ser julgado em setembro. Até lá, o debate entre juristas pode esclarecer alguns pontos. No entanto, existem certos aspectos que permanecem um pouco nebulosos para mim.
Um deles é o elo entre os preparativos para a tentativa de golpe e as invasões de 8 de janeiro em Brasília. É possível depreender dos depoimentos, provas e gravações que a virada de mesa dependia basicamente de dois fatores.
O primeiro deles era a suspeição sobre as urnas eletrônicas. Bolsonaro investiu pesado nisso. Começou por duvidar de sua própria vitória nas eleições de 2018; fez reuniões com embaixadores para disseminar a suspeita; recebeu hacker no Palácio da Alvorada e, de uma certa forma, introduziu a ambiguidade num relatório da comissão das Forças Armadas que não encontrou indício de fraude.
O segundo fator era a mobilização popular. Bolsonaro achava que a denúncia de fraude seria um fator importante para colocar gente nas ruas. A porta dos quartéis foi o lugar de encontro, e no dia 12 de dezembro houve conflitos em Brasília, numa espécie de ensaio geral para o desejado caos.
Os dois fatores essenciais, denúncia das urnas e agitação popular, eram o que Bolsonaro contava para assinar um decreto de golpe e obter o apoio das Forças Armadas para sua aventura. No entanto, quando ocorreu o 8 de Janeiro, uma tríplice invasão aos Poderes da República, Bolsonaro não estava mais no governo, assim, ele não poderia assinar nenhuma minuta de golpe.
Outro aspecto da conjuntura que havia sido alterado entre dezembro e janeiro foi que os comandos das Forças Armadas foram trocados, conforme advertiu, numa mensagem, o general reformado Mário Fernandes.
Portanto, a chamada festa da Selma, que reuniu gente de todo o País em Brasília, tinha a característica de um ato de desespero: Bolsonaro já não podia assinar decretos, as Forças Armadas, que recusaram apoio em dezembro, estavam ainda mais predispostas a se afastar de um golpe. Os líderes mais informados sabiam que a conjuntura mudara. Quem assinaria um decreto de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) seria o Lula, um político experiente que perceberia o perigo de uma decisão dessa natureza.
Ainda assim, a manifestação preparada em escala nacional aconteceu. Foi como se dissessem: falhou toda a articulação de cúpula, a iniciativa popular que se resolva.
…Os participantes do 8 de Janeiro foram uma verdadeira massa de manobra. Colocaram a cara para as câmeras, quebraram o que podiam com as próprias mãos, possivelmente contando com a impunidade e futuras menções de honra.
Para os líderes, era tranquilo porque, na verdade, quem arriscaria o pelo seria a multidão. Bolsonaro estava nos Estados Unidos. Seu ex-ministro da Justiça Anderson Torres também foi para os Estados Unidos, licenciando-se do cargo de secretário de Segurança de Brasília.
A única esperança que movia a multidão era a ideia de que as Forças Armadas, indiferentes ao movimento na porta dos quartéis, iriam se sensibilizar com os conflitos da tríplice ocupação.
Não sei como esses episódios serão examinados juridicamente. Mas a verdade é que os líderes foram incapazes de desmobilizar os manifestantes e esperavam, em lugares seguros, o desfecho daquele drama histórico.
Os participantes do 8 de Janeiro foram uma verdadeira massa de manobra. Colocaram a cara para as câmeras, quebraram o que podiam com as próprias mãos, possivelmente contando com a impunidade e futuras menções de honra.
Certamente, foram iludidos pelas análises, inclusive uma de Olavo de Carvalho, divulgada depois de sua morte, antes da festa da Selma, na qual afirmava que o Exército só se mobiliza quando o caos se instala.
Mas foram iludidos também pelas mensagens ambíguas de generais e militares de outras patentes indicando que algo iria acontecer. O próprio Bolsonaro estava esperando algo, uma esperança bem vaga, mas suficiente para manter as pessoas mobilizadas.
O julgamento é de uma tentativa de golpe contra o Estado de Direito. Mas houve também golpe contra a ingenuidade popular, uma suposição de que todos cumpririam seu papel, quando, na verdade, os líderes estavam abrigados longe dali.
O ideal seria um julgamento que abordasse o conjunto dos acontecimentos, envolvendo todos os acusados. Os manifestantes do 8 de Janeiro foram julgados e condenados por seus atos, é verdade. Mas, vistos num quadro mais amplo, mostraram-se mais destemidos do que seus líderes e, nestes primeiros anos, por outro lado, confirmam o ditado de que a corda arrebenta sempre do lado mais fraco.
Faltam ainda detalhes sobre a preparação do 8 de Janeiro. Assim como algumas informações sobre a preparação do golpe no mês de dezembro ainda podem aparecer. Mas a grande curiosidade é saber como se fará justiça a pessoas que tiveram papéis diferentes, inclusive aquelas condenadas a longa penas: em caso de êxito do golpe de Estado, talvez continuassem sua vida modesta e obscura, completamente esquecidas dos líderes que viriam recolher os aplausos pela tomada do poder.
Fernando Gabeira*– é escritor, jornalista e ex-deputado federal pelo Rio de Janeiro. Atualmente na GloboNews, como comentarista. Foi candidato ao Governo do Rio de Janeiro. Articulista para, entre outros veículos, O Estado de S. Paulo e O Globo, onde escreve às segundas. Programas especiais – reportagens – para a GloboNews. Semanalmente, o podcast Fala, Gabeira! – no YouTube – https://www.youtube.com/@falagabeira298