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Carnaval: a fantasia passageira da alma. Por Meraldo Zisman
A fantasia, no Carnaval, é uma forma de licença poética. É como se, por uma nova lei, a sociedade nos desse permissão para viver o absurdo, o improvável, o desejo mais íntimo.
Ah, a festa de carnaval! A grande festa, onde a fantasia não se limita à roupa, mas também à própria vida. Durante esses dias, as ruas ficam cheias de personagens, dos fantasiados de heróis à baiana rodopiando. O sujeito comum, carregado de rotina, se permite ser outro. Se fantasia não apenas com materiais e acessórios, mas também com emoções e comportamentos que, durante todo o ano, permanecem sufocados pela realidade sombria. Mas a quarta-feira de cinzas chega impaciente e não são somente as serpentinas que ficam espalhadas pelo chão. A fantasia, que aparentava ser autêntica durante a festa, se transforma em apenas um sonho mal vivido. Não só guardamos as roupas coloridas, mas também os papéis que ousamos interpretar. A realidade é essa senhora carrancuda que retoma o seu lugar, trazendo consigo a fila do banco, o olhar vazio do metrô lotado, o peso das
contas que ainda não foram quitadas.
A fantasia, no Carnaval, é uma forma de licença poética. É como se, por uma nova lei, a sociedade nos desse permissão para viver o absurdo, o improvável, o desejo mais íntimo. Mas essa permissão é apenas temporária, quase uma armadilha. Enquanto dura, experimentamos o sabor da liberdade; quando termina, experimentamos o gosto amargo do retorno. O que era música, agora é silêncio; o que antes era riso solto, agora é a máscara da seriedade.
Há algo de cruel nessa dinâmica.
O Carnaval nos mostra que podemos nos tornar o que queremos, mas apenas por um tempo. E, como se fosse um truque de mágica, a fantasia desaparece, e com ela, a nossa coragem. Não há espaço para o Pierrô na reunião de segunda ou para a colombina no trânsito das seis da tarde. O verdadeiro desafio não é realizar a fantasia no Carnaval, mas sim manter um pouco dela na rotina.
Trazer o brilho das purpurinas para o café da manhã, deixando a risada fluir sem receio de reprovação, permitindo a leveza, mesmo sem os confetes. A expectativa do próximo Carnaval representa uma renúncia à realidade, que passa a ser apenas o espaço entre uma fantasia e outra.
No fundo, o que o Carnaval escancara é a nossa carência de ser, de nos libertarmos das prisões que nós mesmos construímos. É o espelho onde nos vemos, não como somos, mas como gostaríamos de ser. Talvez, ao olharmos para esse reflexo, possamos transformar a fantasia em realidade, embora um pouco mais tímida, mas real. Porque a principal e pior fantasia talvez seja acreditar que só podemos ser felizes enquanto estamos fantasiados.
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Meraldo Zisman – Médico, psicoterapeuta. É um dos maiores e pioneiros neonatologistas brasileiros. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Vive no Recife (PE). Imortal, pela Academia Recifense de Letras, da Cadeira de número 20, cujo patrono é o escritor Alvaro Ferraz.
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