réveillon

E aí está o réveillon. Por Antonio Contente

réveillon        Aqui está esta crônica quando o réveillon  me pegará, como sempre, dormindo, para o breve acordar com os foguetes. Então 2025, após passar na rua entre os ramos das sibipirunas e, aqui no jardinzinho ao lado da garagem do meu tugúrio entre os galhos das duas goiabeiras, finalmente entrará pela minha janela. Que, na verdade nem estará aberta; porém, ele já sabe que a cada 31.12 é desse jeito: vai se infiltrando pelas frestas.

         Na idade em que estou a perspectiva de chegar a outro dezembro após novos 365 dias e 6 horas, representa a primeira inquirição: será isso possível? O resto, nem inquirições são, sim  misto de votos, de desejos e de variadas esperanças. Como sou um sujeito de vida quase franciscana, para não dizer monástica, para mim mesmo quero apenas poder continuar com minhas rotas, às vezes de fugas, outras de procuras. Tão somente poder bater pernas por aí, caminhar desta Chácara da Barra até a cidade para constatar se as pequenas casas do Cambuí com jardinzinhos na frente, uma porta, e, no máximo, duas janelas, por lá continuam; para minha carícia e meu enlevo.

         A cada novo ano parece que certas lembranças, que julgava mortas, na verdade apenas hibernavam. E ressurgem, primeiro em preto e branco, para depois se colorirem. Chegando, às vezes, a um tecnicolor de e cinemascope de tela larguíssima. Que se filmes de sucesso jamais poderiam ser para outras pessoas, para mim às vezes se transformam em blockbusters tão grandes como “…e o Vento Levou” ou “Assim Caminha a Humanidade”.

         Não, jamais poderia escrever um livro de memórias, mesmo elas sendo tantas. Espanta-me, às vezes, a capacidade que tenho de ir buscar episódios muito remotos, tal qual aquele. Como fui amamentado por minha mãe por bastante tempo, me vejo nitidamente a colher forças para a vida em seu colo farto, muito branco, mais alvo do que as neves do Kilimanjaro e sempre rescendendo ao maravilhoso talco “Royal Briar”. Não tenho, em verdade, lembranças prediletas, mas sim as pelas quais, digamos, navego melhor. As dos tempos passados em que vivi, e as mais recentes em que de vez em quando vivo na Amazônia Profunda, onde nasci, emergem com mais frequência. Bastando, para trazê-las, fatos simples. Como uma janela que se abre ao bater do vento; ou o cair duma chuva que fertiliza a terra e transporta para a sagrada finalidade da nuvens.

         Este ano próximo já começará, calculo, como o passado, com o espocar de apenas uns dois foguetes. Imagino que isso ocorreu e ocorrerá pelas restrições de festas impostas por esses nossos tempos estranhos. E a exiguidade dos estampidos acabou, nas últimas passagens, por me levar a outros réveillons em que eram tantos os estouros, que, muita vezes, tive ímpetos de saltar da cama para ir tomar uns goles embaixo das chuvas de estrelas que alguns fogos d’artifício fazem despencar do céu.

         É claro que, com o passar do tempo, os desejos vão se estreitando; todavia, ainda há alguns que gostaria de ver cumpridos nos próximos meses a que terei direito, se assim determinarem os deuses e as claridades; elas que talvez sejam os melhores alimentos da esperança.

         Uma das benesses que desejaria muito que ocorresse em 2025 era que eu pudesse terminar o “O que Escondem as Neblinas”, romance no qual venho trabalhando há tempos, está bem grande quando ainda nem o terminei e precisará ser diminuído se chegar a termina-lo. Por falar em livro seria esplêndido se este ano o poeta e escritor Mauro Simon e o escritor e pianista Antonio de Padua pudessem lançar seus novos, que sei já prontos. E apenas aguardam o momento oportuno para que se façam festas com muita gente, muitos autógrafos e muito Buchanan’s.

         Que o 2025 logo iniciante possa voltar a me dar, também, os bons papos em certas manhãs no Café Regina, onde se reúne a Confraria dos que sabem contar histórias e dos que, e isso talvez seja ainda mais sábio, sabem ouvi-las. Os pães de queijo são os mais gostosos do mundo, porém apenas quando oferecidos pelo empresário Pedro Porto. E o almoço que cada um consome depois, em suas casas ou não, desce muito melhor. Em razão das bênçãos da fraternidade, o melhor ensaio para que de repente nasçam as pessoas que os livros rotulam como homens de boa vontade.

         Por último, amigos, que venha farta, como espero, a safra das duas goiabeiras que enfeitam a lateral da garagem do meu tugúrio. As frutinhas já estão penduradas, ainda pequenas e verdinhas. Faz uns cinco dias vi duas silenciosas maritacas a se mover entre os galhos. Tive certeza de que eram emissárias do bando que aparece todo ano, e que vieram inspecionar o que terão assim que escorrer janeiro e fevereiro se ampliar. Será uma glória que me beatificará por bom tempo o acordar, até começos do Outono, com as verdes aves quase a abrir minha pobre janela.

Feliz Ano Novo a todos. Tá logo ali.

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Antonio ContenteANTÔNIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.

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